Agosto 2015 | Bang Bang Escrevi

Resenha | Capão Pecado, Ferréz

27 de ago de 2015
E aí Fellas!

Hoje trago para vocês essa obra surpreendente, talvez mais pra mim ou nós aqui da periferia, que é Capão Pecado, do Ferréz. 

Capão Pecado, conta a história de Rael, da sua infância até sua vida adulta. Rael é um menino comum, que vive na periferia da zona Sul de São Paulo, mais especificamente no Capão Redondo. Como todos sabem se acompanharam os jornais há alguns anos atrás, o Capão sempre foi uma reverência a violência no estado de São Paulo, atualmente trabalho no bairro e convivo com as histórias e aqui o livro começa a ser impressionante. O livro pareceu para mim, intimamente invasivo, cita diversos lugares que conheço, que já passei e alguns que até frequento.

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Rael é o diferente da Favela, ele entende a sua situação, e quer melhorar. Carrega consigo seus sonhos e os exemplos da sua mãe, que é a sua inspiração e a vertente mais emocionante do livro, porque ele também é consciente dos sacrifícios dela. A mãe do Rael é idêntica a milhares de mães que fazem de tudo para dar ao filho condições de escapar da dura realidade. O livro lembra muito os conselhos que recebia na minha própria casa, principalmente, o "Só se perde quem quer" e o "Respeito deve sempre prevalecer, dizer um bom dia ou boa noite nunca matou ninguém", isso é minha mãe sobre cumprimentar a malandragem.

É difícil escrever sobre o livro, porque ele é parte da minha realidade, então existe um confronto sobre o que é a história e sobre coisas que eu sei ou aprendi nesses quase 20 anos que moro na Zona Sul. Mas enfim, Rael vai crescendo e se apaixona por Paula, namorada de um amigo seu, e aí a treta tá feita. Não vou entrar em detalhes aqui, pra não estragar a surpresa. Paralelo a história de Rael, Ferréz insere o cotidiano da bandidagem representada pelos "caras mais velhos" e pela figura de Burgos, assassino cruel e sangue no zóio da favela! Burgos é o protagonista de uma série de atrocidades que acontecem durante a leitura e que costumam ser cada vez mais chocantes.Outra viés importante do livro é o constante embate com o sistema e com os mais ricos. Mostrando que a favela carrega um rancor das classes altas.

Na minha edição tem algumas notas entre uma parte e outra da história, na primeira, que foi feita pelo próprio autor, notei uma indignação por terem rotulado o livro como "ficção da realidade", discordo totalmente disso. Pra nós, que moramos aqui, não é preciso muita imaginação para criar atrocidades. O cotidiano se encarrega disso.
Ficha Técnica 
Título: Capão Pecado
Autor: Ferrez
Acabamento: Brochura
Editora: Planeta
Ano: 2005
Edição: 2013
I.S.B.N. 9788542201406
Nº de Páginas: 152

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Resenha | Ratos, Gordon Reece

19 de ago de 2015
E aí, Fellas? Mais uma resenha pra vocês! Sabe aquele livro que você compra porque gostou da sinopse, então, Ratos é esse livro.

Quando comprei esse livro, não fazia a menor ideia do que se tratava a história, mas gostei do tema, fala de pessoas que são oprimidas, uma clássica temática relacionada ao Bullying, nossa protagonista, a jovem, Shelley foi vítima de um trauma na escola, o que leva a família a buscar uma espécie de refúgio no campo.

A família de Shelley, passou por um divórcio tortuoso, onde o seu pai traiu a sua mãe com a secretária e blá-blá-blá, clichê. A mãe é advogada e extremamente esforçada, faz de tudo pela menina, o que a torna em uma heroína. É interessante ver como a Shelley entende os sacrifícios da sua mãe mesmo tendo apenas 16 anos, e como isso se desenvolve durante a leitura. A relação das duas se torna extremamente forte e vai muito além do vínculo mãe e filha.

Shelley que narra a história e em inúmeras passagens ressalta o fato dela e da mãe serem "ratos", isso é, em sua definição, "pessoas que procuravam um lugar para se esconder", em uma abordagem aumentada, Shelley e sua mãe eram consideradas pessoas fracas pela/para a sociedade, que sempre concordam com o que lhes for imposto, que não tem voz própria. Essa fraqueza é representada na forma como a Shelley tratou o bullying, sem saber que era bullying e em como a mãe dela aceitou que o pai levasse tudo durante o divórcio.

E até tal momento, envolto no drama familiar e na história do trauma que a garota passou na escola, o autor apresenta uma reviravolta na história, que pra mim, apareceu meio do nada, mas que deu um tom muito mais interessante na história, deixando o restante como uma subtrama. Em todo momento, como visto acima, existe uma hipérbole da fraqueza física e mental da nossa protagonista e da sua mãe, através da relação com a figura do rato, acentuada pela ironia da nossa jovem de 16 anos, o que é bem comum nessa idade. A partir desse momento o livro é desclassificado como "uma leitura em caso de bullying". O autor atinge extremos bem interessantes.

Eu fico fascinado por esse tipo de coisa, e um pouco assustado também, porque afinal fico pensando em como seria se fosse eu naquela situação, o que teria feito? A resposta permanece um mistério para mim. Ratos, torna-se aquele tipo insano de livro, que leva as pessoas a enfrentarem seus medos, desde que entendam que extravagâncias não são necessárias. Claro, trata-se de uma ficção, mas os personagens não estão em outra dimensão ou era da história, eles podem representar alguém que você conhece; seus vizinhos, seus parentes ou até mesmo você.

Ficha Técnica 
Título: Ratos
Autor: Gordon Reece
Acabamento: Brochura
Gênero: Ficção
Editora: Intrínseca
Ano: 2011
I.S.B.N. 9788580570700
Nº de Páginas: 240

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Resenha | O Cão que Guarda as Estrelas, Takashi Murakami; JBC

18 de ago de 2015
Bom dia, amigos! Estou em êxtase. Fazia muito tempo que não lia algo assim, talvez a última obra tenha sido Caninos Brancos ou O Apelo da Selva. E assim como Caninos e Buck, Happy garantiu um lugar especial no cantinho dos favoritos. Mas deixa desse sentimentalismo e vamos lá! (até parece, esse livro é de encher oceanos)

É difícil pra caralho ler essa obra. Vamos começar assim, porque ainda estou emocionalmente abalado. O Cão que Guarda as Estrelas, de Takashi Murakami conta a história de Happy, um cachorrinho qualquer que é encontrado por Miku, sem grandes condições especiais e levado para casa de uma família comum japonesa, simples né? Isso mesmo. A história é narrada a partir da visão do cão, de como ele enxerga os humanos e de como as coisas mudam com o passar do tempo.

Diferente do que estamos acostumados a ler em mangás - eu pelo menos -, a simplicidade dessa história é de encher aos olhos, por que mesmo sendo simples ela levanta questões infinitamente profundas sobre a vida, no final do livro tem um posfácio do autor que é o pingo no "i", onde ele adverte para não julgar tão simplesmente o protagonista.

Outro ponto intensamente interessante é sobre os nomes dos personagens. A obra é dividida em duas partes e em momento algum é revelado o nome da figura masculina e da figura feminina, o cão apenas os trata como "papai" e "mamãe", exceto por Miku, acredito que seja porque é normal os pais chamarem os filhos pelos nomes e não o contrário, enfim. Esse aspecto dá a obra um tom universal, será que pra todos os cães somos "papais" e "mamães"?

A obra insere a figura do cão como a representação da pureza, de amar independente de qualquer coisa. Desta forma, Happy é uma alegoria de tamanha representação. Capaz de se estender até a segunda parte do livro e emocionar tanto os personagens do livro que não conheciam a sua história, como estender seu latido a quem está lendo. Happy tem essa capacidade de fazer seus cães internos uivarem, de fazer você se lembrar dos pequenos companheiros que teve e que amou.

O mais engraçado, entretanto, é o fato do cão se chamar Happy, do inglês, Feliz. Porque a obra em si é uma história triste, cujo qual, você deve estar psicologicamente preparado, mas quando a tempestade sentimental passa, você acaba por agradecer ao autor e ao Happy, pelos sentimentos que ele desencadeou, pelo pequeno momento de alegria.

E, por último, vamos falar rapidamente sobre o próprio título, os japoneses são cheios disso. "O Cão que Guarda as Estrelas" ou "Hoshi Mamoru Inu", é um expressão japonesa usada para representar algo inalcançável, representado pelo cão que observa as estrelas, como se as quisesse, mesmo que isso seja impossível. Isso não é um spoiler, pois trata-se da primeira frase do mangá. Porém, isso se desenvolve durante a história nos próprios personagens. E também, em um ponto de vista pessoal, porque acredito profundamente nisto, estamos todos fadados a sermos cães que guardam as estrelas em um momento ou outro na vida. E... Bam, lá vem o choque de memórias novamente.

Sem dúvida é um livro que se enquadra na prateleira das obras breves como uma brisa e devastadores como uma tempestade, e também na dos títulos favoritos. Além de ser indispensável para qualquer colecionador ou amante de cães. O maior elo que criei com O Cão que Guarda as Estrelas, é o de que o livro foi escrito pensando em mim, pra mim, entende!? Tenho certeza de que milhares de leitores tiveram a mesma situação. Agora deu.

Beijos, Nina e Diva!
Saudades, Ralf, Pink e Bianca!

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Ficha Técnica 
Título: O Cão que Guarda as Estrelas
Autor: Takashi Murakami
Acabamento: Brochura
Gênero: Ficção
Editora: JBC
Ano: 2014
I.S.B.N. 9788577879045
Nº de Páginas: 132

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Resenha | A Vida Privada das Árvores, Alejandro Zambra

14 de ago de 2015
Fala meu povo!
Hoje mais uma resenha dos bons e pequenos livros da vida, estou falando de A Vida Privada das Árvores, do querido e recém descoberto, Alejandro Zambra. Se você não conhece a obra desse autor, depois de ler essa resenha, clique aqui, e leia também a resenha de Bonsai, um incrível livro sobre o fim de um amor.

Neste título, Zambra conta a história de Julián e sua enteada, Daniela, que em uma noite comum como qualquer outra noite na vida deles, eles devem esperar o retorno de Verônica, mãe de Daniela. E paramos aqui, por ser o segundo romance do autor que leio, e como li um em seguida do outro. Achei fantástica a sua capacidade de pegar situações corriqueiras, como uma simples espera e transformá-la em uma obra de teor tão profundo, onde ao final ficamos buscando significados para nossas atitudes.

O livro, curtíssimo, é um belo ensaio sobre os últimos encontros, e Daniela é um agravante na história, porque, afinal, ela não é filha de Julián e mesmo assim ele está lá totalmente disposto a cuidar da menina, sob um espectro de que, talvez, e muito talvez, Verônica não retorne. Em meio a isso, estamos novamente nas mãos do autor, que parece ter prazer em brincar com nossa ansiedade.

Durante essa espera, Julián reflete sobre a vida, passado e futuro, e o que irá dizer à Daniela, caso a mãe não retorne. Dentro dessas reflexões separei um trecho que gostei profundamente:
Tudo bem, era sem compromisso, como deve ser: ama-se para deixar-se de amar e se deixa de amar para começar a amar outros, ou para ficar sozinho, por um tempo ou para sempre. Esse é o dogma. O único dogma.
Claro, que não darei spoilers aqui sobre o final do livro, por isso não posso estender-me muito. A história inteira se passa no percalço de um curto período de tempo e é contada de uma forma que faz você sempre querer olhar a página seguinte.

Deu.

Ficha Técnica 
Título: A Vida Privada das Árvores
Autor: Alejandro Zambra
Acabamento: Brochura
Gênero: Ficção
Editora: Cosac Naify
Ano: 2013
I.S.B.N. 9788540503052
Nº de Páginas: 96

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Resenha | Bonsai, Alejandro Zambra

13 de ago de 2015
Olá, caros amigos!
Hoje trago essa dose de amor para vocês, pequeno como um Bonsai, gigante como o elemento vivo que o habita.

Esse compacto livrinho de Alejandro Zambra, nos apresenta uma história sobre a conformidade, sobre o fim, ou acostumar-se ao fim, porque, do casal que protagoniza a história, ela morre e ele fica sozinho no final. Calma, não se preocupem, isso não é um spoiler, é uma das primeiras frases do livro e o começo da brincadeira que o autor faz com os leitores.

O livro conta a história de Emília e Julio, um casal normal que gosta de livros e músicas, que se conheceram, ficaram juntos e estavam fadados a se separarem. O narrador brinca conosco testando hipóteses sobre o fim e por vezes adiando-o, esticando o sofrimento do pobre Julio. O livro é breve, mas devastador. É aquele tipo de literatura que você precisa digerir, e como o próprio protagonista conta, "um daqueles que é preciso revisitar, com o tempo, por sempre achar que deixou passar algo".

O mais divertido do livro, sem dúvida, é ver como Julio se conforma com o fim do relacionamento, ou não, e como o caminho deles se desvencilha. O livro é ao mesmo tempo sério e engraçado, como um extra de sarcasmo adicionado pelo narrador, dando um tom tragicômico aos acontecimentos. Além, é claro, de ser recheado de boas indicações de leitura e referências para quem, como eu, gosta de se aventurar nesses labirintos.

Indico a leitura para quem quer um romance descompromissado e está cansado dos eternos calhamaços.

Ficha Técnica 
Título: Bonsai
Autor: Alejandro Zambra
Acabamento: Brochura
Gênero: Ficção
Editora: Cosac Naify
Ano: 2012
I.S.B.N. 9788540501881
Nº de Páginas: 96

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