Resenha: O Lobo da Estepe, Hermann Hesse | Bang Bang Escrevi

Resenha: O Lobo da Estepe, Hermann Hesse

4 de mai de 2013
Título: O Lobo da Estepe
Autor: Hermann Hesse
Editora: Record/Altaya
ISBN: 8501154164
Ano: 1995
Páginas: 224

Tradutor: Ivo Barroso
Avaliação:


Ah, Harry, quanta miséria e desatino temos de passar para chegar a casa! E não temos ninguém que nos guie, a não ser nosso desejo de chegar. (Hermínia) [Pg. 157]
Manolos vou falar pra vocês... que livro fantástico. Esse é aquele típico livro que não pode ser julgado pela capa. Até porque, a capa do meu era simples de uma edição bem antiga (entre 1993 e 1995) da Coleção Mestres da Literatura Contemporânea lançada pela Editora Record/Altaya com lombada e capa com detalhes dourados. Linda. Mas vamos a resenha.

Pra entender o livro é preciso, antes de tudo, entender o momento. Originalmente, O lobo da estepe, foi publicado em 1927, por Hermann Hesse, escritor alemão, naturalizado suíço e vencedor do Prêmio Nobel de Literatura de 1946. Hesse se mostrava contra o revanchismo e militarismo que se passava na Alemanha após a Primeira Guerra Mundial e o livro critica isso abertamente e deixa claro que, mesmo naquele tempo, já se vivia sobre a sombra de uma outra guerra, que se mostrava inevitável. Essa postura o tornou conhecido na Alemanha e em algumas passagens do livro parece que na verdade, Harry Haller, é um alter-ego de Hesse. Até determinado ponto, é claro.


Agora que temos o contexto, vamos ao livro. Vi muitas críticas em relação ao desenvolvimento do livro, que é lento, que é só um velho andando e bebendo e coisas desse tipo. E sim, colocando de forma elementar é isso mesmo, mas é absurda a profundidade que o livro alcança. Harry Haller, é um quase cinquentão que tem sua vida definida e não depende de ninguém e durante toda sua vida buscou a independência e isso o levou a solidão. Meio nômade, Outsider - O que não faz questão de se enquadrar -, culto e que definiu os 50 anos como a sua data de partida do mundo é o novo inquilino na pensão - no livro não tem um lugar e depois isso ficou me martelando, de que se tivesse deixei passar batido - e do nada desaparece. O sobrinho da dona da pensão é que encontra os manuscritos de Haller e à partir daí a história começa a se desenrolar.



Haller passava os dias dormindo, as tardes lendo e às vezes a noite saía, mas não gostava de nada da sua época e alimenta um ressentimento enorme quanto a cultura da sua época. Venera Mozart e Goethe e o livro inteiro é cheio de referências, descobre sem querer um lugar mágico, através do que pareceu ser uma alucinação, um lugar que não pode ser encontrado, mas que encontrará você. Para encontrar esse lugar ele contará, sem saber, com a ajuda de Hermínia, a moça que parece seu amigo de infância, Maria, a moça bonita e letrada nas artes do prazer e Pablo, o músico, que serão apresentados durante a história ao leitor. A relação dele com esses personagens dá-se de diversas formas e com cada um deles surgem os ensinamentos filosóficos, sociológicos e espirituais. 
Foi isso o que me aconteceu. Fiquei algum tempo desconsolada e procurei com afinco a culpa em mim mesma. A vida, pensava eu, sempre acaba tendo razão, e se a vida ria dos meus belos sonhos, pensava, era porque meus sonhos tinham sido estúpidos e irracionais. Mas isso não me valeu de nada. Mas como tivesse bons olhos e ouvidos, e , além disso, fosse curiosa, examinei a vida com certa atenção, observei meus vizinhos e conhecidos, mais de cinquenta pessoas e destinos, e percebi então, Harry, que meus sonhos estavam certos, estavam mil vezes certos, assim como os seus. Mas a vida, a realidade, não tinha razão. (Hermínia) [Pg. 154]
O livro inteiro é uma crítica ao comodismo, a servidão e a burguesia. Relata-se também a pluralidade da alma, de que somos composto não por uma mas por incontáveis almas e Harry ao contrário e a princípio, acredita somente em si e no seu monstro interior, o lobo da estepe, o seu lado racional e o irracional e nesse ritmos trava-se a luta entre essas duas partes durante toda a história.
Pois o que eu odiava mais profundamente e maldizia mais, era aquela satisfação, aquela saúde, aquela comodidade, esse otimismo bem cuidado dos cidadãos, essa educação adiposa e saudável do medíocre, do normal, do acomodado. [Pg.30]
Em meio aos seus problemas Haller se depara com sua morte e descobre temê-la, e até esse ponto o livro é só sobre Haller, à partir daqui que se conhece os novos personagens. Entre as conversas serão debatidos os mais diversos temas: religião, sexo, filosofia, cultura, guerra etc. e isso torna o livro rico e um espelho de sua época, onde é possível olhá-lo e ver o que se passava e se ver refletido cheio de novas convicções, não pense que acaba por aqui, a linha principal, isso é, o fio-mestre, da história é a relação de Harry com a morte e seu desfecho é sensacional, pois durante toda a história você acha que o final é evidente e no fundo você deixou passar o mais fundamental da história de Harry Haller.

Para os que não conhecem, o lobo da estepe, inspirou o músico e compositor Fernando Anitelli e deu título ao primeiro albúm da trupe, O Teatro Mágico. E também virou filme em 1974. No vídeo abaixo tem um pedaço do filme e o Tratado do Lobo, o documento que ilustra o dilema do homem-lobo.



Separei várias citações, mas a maior parte delas são enormes. Para mais quotes do livro acesse o link dele da minha estante no Skoob. Quem quiser pode adicionar.


Uma última crítica da época, efetivamente aplicada aos dias atuais:

...como hoje os primórdios do rádio, só servirá ao homem para fugir de si mesmo e de sua meta e envolver-se numa rede cada vez mais cerrada de distrações e ocupações inúteis. [Pg. 108]
Parti, eu e meu lobo interior.
Victor Candiani

Uma pessoa que gasta muito tempo com livros, filmes e séries.

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