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Resenha: Caninos Brancos, Jack London

12 de abr de 2013
Caninos Brancos - Jack London


Sabe quando você descobre que aquele seu filme favorito da infância, que passava pelo menos 3 vezes por ano na sessão da tarde, era inspirado em um livro com o mesmo nome, mas você nunca se deu conta disso? Pois é, até achar o livro perdido eu não sabia. 

Lobinho, Caninos Brancos, Lobo Lutador ou Lobo Indomável, não importa, apenas viaje em suas quatro patas. A história é simples, com um toque de delicadeza surpreendente. A maior parte do livro acontece na cabeça do lobo, da sua concepção de paternidade, meio ambiente, homem, outros animais etc. que irão auxiliá-lo na formação da sua personalidade, não que ele entenda esse conceito, mas vão formar o que ele é. Isso é o mais incrível do livro, o ponto de vista do lobo e como ele age de acordo com aquilo que ele vê e sente além da concepção de bem e mal, sendo bem aquilo que causa prazer e mal o que lhe causa dor, aparenta ameaça ou hostilidade. 

Desde a primeira presa e o gosto do sangue quente, os momentos de solidão, o abandono paternal, a fome e todas as condições que ele está exposto no Wild - o selvagem, desconhecido - até as suas reflexões sobre os humanos, a domesticação e a repreensão do seus instintos, o conflito com os da sua raça e o choque ao descobrir o amor. Tudo está exposto nos pelos e reflexões de Caninos.

Os homens deuses, e isso achei interessante, nós seres vivos temos o costume de tomar por divino aquilo que desconhecemos ou pouco compreendemos e que podem nos afligir, de alguma forma, dano, pena ou punição, o mesmo acontece na relação lobo e homem. O que expande a compreensão sobre o comportamento humano e como os animais se comportam. Imagino que London não tinha nenhum conhecimento nem estudo formal acerca do comportamento dos animais, tudo foi fruto da sua imaginação e poder de observação e mesmo assim, ele constituiu um trabalho excepcional.

A obra é caracterizada como infantil, mas é uma leitura para quem busca viajar, transpor os limites da carne e se transformar em lobo, para sentir o que caninos sentiu. Se permitido a obra é totalmente transcendental, claro, todas obras são, mas essa ultrapassa o limite personagem humano, sendo possível sentir-se um animal, um lobo selvagem. 

Jack London cresceu na Califórnia, nasceu em 12 de janeiro de 1876, foi essencialmente autodidata, largou o curso de jornalismo em Berkeley aos 21 anos, depois de descobrir as razões do suicídio da mãe. Foi para Klondike em 1897, atrás da corrida do ouro que ali se desenvolvia, o que prejudicou sua carreira e onde nasceram boa parte de suas histórias. Voltou para a Califórnia um ano depois, onde dedicou-se a virar escritor. Dentre seus histórias, navega "O Chamado da Floresta" que aparece no filme Into The Wild de Sean Penn com a perfeita trilha sonora de Eddie Vedder, como um dos livros lidos por Alexander Supertramp - Christopher McCandless, interpretado por Emile Hirsch -, além de Caninos Brancos, na sua viagem em busca do existencialismo.


Encontrei uma edição 1983 da Companhia Editora Nacional com tradução de Monteiro Lobato - dono da editora -, com 184 páginas, sem sinopse e que faz parte da Coleção Terramarear, que por iniciativa de Monteiro Lobato introduziu a literatura no cotidiano de São Paulo trazendo títulos como Robin Wood, Tarzan, Mogli, o menino lobo, O último dos Mohicanos entre outros. Faz parte do grupo IBEP-Companhia Editora Nacional, desde 1980 e em 2009 o grupo adquiriu a Conrad Editora, especializada em histórias em quadrinhos.


Victor Candiani

Uma pessoa que gasta muito tempo com livros, filmes e séries.

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