Resenha: A Metamorfose, Franz Kafka | Bang Bang Escrevi

Resenha: A Metamorfose, Franz Kafka

17 de abr de 2013
Editora: Nova Cultural
ISBN: 8513010987
Ano: 2002
Páginas: 110
Tradutor: Calvin Carruthers
Avaliação:


"Numa manhã, ao despertar de sonhos inquietantes, Gregor Samsa deu por si na cama transformado num gigantesco inseto. Estava deitado sobre o dorso, tão duro que parecia revestido de metal, e, ao levantar um pouco a cabeça, divisou o arredondado ventre castanho dividido em duros segmentos arqueados, sobre o qual a colcha dificilmente mantinha a posição e estava a ponto de escorregar."
Ler A Metamorfose é aceitar um desafio, pois você pode acabar não gostando do que vai ler. O problema é o sentimento que você gera pela criatura, sim, bicho, bagulho feio em que se transforma Gregor Samsa e tudo fica mais difícil à partir do momento que esse inseto não perde a sua consciência humana e continua sentindo e relatando tudo o que acontece. No fundo, A Metamorfose, é uma análise acerca da humanidade que ainda existe nas pessoas com algumas alfinetadas no sistema econômico da época que idolatrava o emprego como um deus. 


O livro foi escrito em 1912 e publicado em 1915, Kafka expõe na história dividida em três partes a preocupação com as obrigações e relações familiares, a inferioridade carregada pelo filho em relação ao pai e a decadência da condição humana. Gregor sempre fez o melhor para ajudar a família e agora se encontra nessa situação desesperadora, sem poder fazer nada e sem previsão de melhora. Ao redor dele as pessoas em um primeiro momento, não sabem o que fazer, mas logo em seguida a vida segue o seu rumo. 

Kafka se empenhou em rechear o livro com metáforas, mas varia muito da percepção de cada um encontrá-las e interpretá-las. Ao meu ponto de vista reluziram três especificamente.
  • A Janela: Gregor sempre se encontra a olhar pela janela admirando ou temendo o inalcançável. Nós diante dos desafios que a vida apresenta e a imobilidade que às vezes desenvolvemos.
  • A Maçã: Só vou explicar pra não dar spoiler. Uma ferida que não se fecha e acaba apodrecendo, não tendo assim mais solução. A amargura que carregamos.
  • O Besouro:  Fiquei me perguntando... Por quê diabos um besouro? E a resposta que mais me agradou foi, em suma, que ele desafia as leis da física, por ser pesado demais para voar. O que, traduzido parar ditados populares, significa que nada é impossível.
Se for ficar fazendo interpretação das metáforas, a gente não termina isso aqui em menos de uma semana pelo menos.

Não é segredo encontrar na biografia de Kafka os seus problemas com o pai, e fica evidente em uma série de passagens do livro esse conflito. O Pai era a maçã no Kafka (depois de ler, hão de entender).  A desaprovação, descrença, desavença, descrédito - des+complemento -, o que acaba estreitando a sua relação com o personagem e desenvolvendo uma espécie de esperança por dias melhores. 

O livro é excelente, e infelizmente, curtíssimo. No final deu a impressão de que o autor quis encurtar a história e terminou ela rapidamente, fico imaginando o que mais ele teria explorado se tivesse se disposto a isso. O desfecho foi intragável. Mas também imagino o desgaste psicológico gerado por esse tipo de escrita, recheado de detalhes e que mexem em coisas que queremos esquecer.

A edição faz parte da mesma coleção da Editora Nova Cultural em parceria com o Grupo Suzano papel e celulose. Que já citei em outra resenha (aqui). Capa-dura preta com desenhos em dourado.

Victor Candiani

Uma pessoa que gasta muito tempo com livros, filmes e séries.

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