Junho 2010 | Bang Bang Escrevi

Falando de amor

25 de jun de 2010
Amores podem ser duradouros como uma liga metálica ou breve como o respiro de vida das borboletas que dura apenas 24 horas.
O ser humano tem manias de guardar tudo, desde uma entrada no cinema a uma tampa de caneta porque julga que pode esquecer um dia e através de objetos assim pode lembrar-se de tudo que já viveu. Mal sabem os seres, o quanto isso é real. Mexendo em coisas do passado, em caixas, armários e frestas do guarda-roupa – lugares assim deviam conter avisos do tipo: Mantenha Distância – encontrei no meio de um monte de papéis, velhas fotografias de um amor que foi perdido. Perdido pelo tempo e pela falta dele. Esses momentos congelados no tempo e no espaço, castigadas pela eternidade a guardarem as expressões felizes de cada face sofrendo apenas a perda de sua pigmentação.
Algumas fotografias possuíam rabiscos dizendo “com carinho”, “eu aprendi muito com você”, “eu te amo”. Enquanto lia essas histórias mal escritas ou resumidas ao extremo para caberem no espaço de uma foto, lembrei dos momentos em que essas fotos tinham sido tiradas. A recordação do sentimento me foi instantânea e veio como uma bala de revólver disparada tão próxima de mim, que deu pra escutar o barulho do gatilho quando foi puxado. Logo, tão logo, uma pergunta: O que aconteceu com todo esse sentimento? É meus caros, o doce e o amargo de um amor, a cara e a coroa que mesmo tão próximas nunca vão se tocar.
O sentimento tende com o tempo a ruir naturalmente, se dispersar pelo ar, segundo após segundo, depois de cada respiração. A principal certeza da existência desses amores são essas lembranças, elas ativam algum mecanismo que se esconde dentro da gente, esperando gemidos de dor, como se torturassem cada pedaço do coração e dessem no cérebro choques tentando ressuscitar amores que dizemos estarem mortos. Mortos eles nunca estarão, quanto a presença deles é possível dizer que é nulo. Nem mesmo o tempo apaga um amor, podem se passar anos e anos, esquecer por alguns momentos, mas ao mexer em lugares onde guardamos as memórias da nossa vida podemos nos deparar com fotografias, cartas ou tickets de meia-entrada de cinema que nos farão ter, sem querer, a nostalgia daquilo que já passamos.
Quanto aos novos amores e a domesticação da mente, o falso domínio de situações e a acomodação de um novo ser, esses são processos necessários para anularem a existência de um passado, seja ele distante ou próximo, permitindo que você possa ter com alguém, aquilo que já viveu com outro. O amor nada mais é do que isso, a permissão da entrada de outra pessoa em sua vida, se acomodando e te tornando tão dependente do que ela faz você sentir quando está por perto que em momento algum quer deixá-la partir, mesmo sabendo que ela retornará.

1/2=1

14 de jun de 2010
“Eu quero a sorte de uma amor tranqüilo com gosto de fruta mordida...”
Quem dera eu ter um amor assim
Coisas tão complicadas que sempre chegam ao fim
Viver matando-se a cada instante
O carinho e a mordida de um amor sufocante

Nossos amores tão diferentes
Embalados por pequenos textos em mensagens
As velhas fotografias sorridentes
Pelos cantos aqueles narizes de palhaço
E na memória as horas demorando-se em abraços.

Esperar pelo simples fato de esperar
Ter o amor dividido com outro
Acabar tendo que contentar-se com o pouco
Amar querendo ser amado e sem querer amar só
E por fim acabar vendo toda a esperança tornar-se pó

No final descobrir que de fato o amor estava ali
Presente o tempo todo tentando se tornar real
Durou sem questionar o tempo que foi possível
Tornando se extremamente necessário
E a decepção inevitável.

Um dia esse amor irá partir
Sem deixar carta ou recado de despedida
O tempo vai passar as coisas irão mudar
Levando junto tudo que era seu
Dizendo simplesmente, adeus.

A outra metade

5 de jun de 2010
O querer, por querer bem
conhecer o mundo e ir além.
Até porque, pensando bem
existe coração que não é de ninguém
Descobrir que é aqui
e que o aqui é agora.
Não há lugar melhor para procurar do que lá fora.
Conhecer alguém e se entregar
doar-se muito mais do que venha a receber.
Dormir e acordar
E nem se quer por um segundo esquecer.
Sonhar, e sonhar acordado.
Sentir gritante a ansiedade
e morrer diagnosticado de saudade
Viver longos dias de solidão.
Eternos momentos de gratidão.
Ser outro ser,
e esse em você permanecer
Em lacunas da memória
cravar linhas e linhas de história.
Nas moradas noturnas
romper barreiras.
Superar desafios
e fazer o amor arder em calafrios
Abraços  apertados, contentes.
Bocas felizes, sorridentes.
Mas, por hora
permita-me a partida
tenho que encontrar sem demora
a outra metade da minha vida
Porque, onde tinha um hoje tem dois
e o resto, bom o resto... fica pra depois.

Menina veneno

4 de jun de 2010
Ah! Essas mulheres que roubam olhares, que deixam qualquer homem apaixonado. Venenosas, adentram as entranhas do ser e proliferam-se até se tornar o único motivo para o dia, a tarde e a noite.
Atordoam, arrancam noites de sono, tiram a fome e a sede, fazem a vida pulsar, pulsar de tal modo, e tanto, que seu primordial objetivo é plena virtude de cuidar para que isso não termine brevemente.
Falam baixo e em tons encantadores, deixam lençóis amarrotados por todos os cantos e por todo o homem. Independentes e convictas de seu amor, e sim, dele elas sabem e muitas vezes pouco se importam. Já passaram pela dor de amores assim, que soavam perfeitos e tornaram-se, caos.
Hoje crêem apenas na vida e no que ela pode oferecer. A vida essa senhora de idade e experiente, que não nega bronca nem sorriso a qualquer ser que lhe permita um abrigo interior. Uma faísca de ousadia ou completa insanidade.
Certas mulheres, essas na sua vez têm todo o direito de fazer um homem sofrer, chorar... sentir o gosto do seu próprio veneno. Podem sem receio, encostar a cabeça em seus travesseiros de paz interior e ter uma noite tranquila de sono, até porque todo menino – homem que não cresceu – devia nas esquinas da vida onde brincou e nas avenidas de corações partidos onde outrora esquecera seus brinquedos, encontrar uma mulher assim, para aprender a homem de verdade ser.
O amor não serve de pilha para carrinhos de controle remoto.
 
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